Notícias

06/08/2022 17:32

Educação (des)conectada: diário escolar digital custa cerca de 3 milhões e acumula falhas de operação

Hoje, os aparatos tecnológicos fazem parte do cotidiano das salas de aulas e contribuem na função pedagógica e organizacional de uma rede de ensino. Foi nesse contexto que a Prefeitura de Aracaju, através da Secretaria Municipal da Educação (Semed), iniciou no final de 2018 a licitação para contratar uma empresa que seria responsável por conectar a rede municipal de ensino a um sistema de gestão acadêmica digital e funcional. Em dois anos de funcionamento, desde iniciado o processo, reclamações e prejuízos são os maiores saldos dessa tentativa.

 

É chamado de GIER (Gestão Inteligente da Educação Responsável) o sistema implementado que entrou em vigor no ano de 2020. Seu funcionamento pode ser simplificado como um diário escolar virtual para os docentes da rede. Ele faz parte do software desenvolvido pela empresa vencedora da licitação – GIESPP. A contratada, sediada em São Paulo, foi responsável por desenvolver o Sistema Integrado de Gestão Municipal de Aracaju com o objetivo de promover uma melhoria dos processos administrativos, pedagógicos e de gestão de pessoas. 

 

Na chamada pública da licitação, a prefeitura afirma que ‘‘o sistema a ser adquirido deve promover a padronização dos processos, redução de custos, melhoria na gestão do tempo e, consequentemente, qualidade na dinâmica operacional das atividades administrativas, além da promoção e facilitação da integração da família do aluno’’.

 

Com o custo de quase  R$ 3 milhões aos cofres públicos do município, a implementação do GIER resulta em problemas severos para a gestão dos docentes nas instituições de ensino. O sistema eletrônico, que tinha a premissa de facilitar a gestão e atividades administrativas da rede municipal de ensino, tem operado no sentido oposto do seu objetivo, gerando dores de cabeça às professoras e professores devido a bugs e mal funcionamento. 

 

Problemas como dificuldade para lançar as informações no sistema e sumiço de dados após preenchimento do diário eletrônico, tem afetado não só o trabalho, mas a saúde mental dos/as professores/as. “O serviço fica sempre atrasado por erros que o sistema apresenta. A sensação é de que o GIER veio para dificultar nossa vida. Preencho as informações e quando vamos salvar, apaga tudo.Estou cansada de entrar em contato com o suporte e não conseguem resolver. Isso é angustiante. Estou decepcionada e muito cansada. Esse desgaste emocional não é legal”, desabafa uma professora.



 

A Secretária de Comunicação do Sindipema, professora Cátia Oliveira, denuncia que “desde que começou o ano letivo, não consigo fazer nada no GIER. Apenas aparece meu nome, turma e data. Um sistema tão caro e péssimo. Só serve para levar o dinheiro de Aracaju para a empresa privada de São Paulo, responsável pelo GIER. E para nós, que temos que executar nosso trabalho, só dor de cabeça e acúmulo de trabalho”.

 

O impacto desses problemas são ainda mais acentuados com a iminência da pandemia que aumentou a dependência ao sistema. 

 

A licitação, que foi realizada por meio de pregão eletrônico, consta algumas suspeitas levantadas pelo Sindipema. A empresa contratada, GIESPP, apresentou o maior valor de proposta comercial comparado com as demais concorrentes. Entretanto, durante a análise de propostas, realizadas pela Semed, as demais empresas foram desclassificadas, sendo arrematada a empresa de contrato vigente. 

 

Um  processo de licitação se trata de um meio pelo qual a Administração Pública contrata obras, serviços, compras e alienações. A seleção analisa as propostas das empresas interessadas e seleciona através dos requisitos mínimos de qualificação exigidos no edital; e menor preço ofertado. O Sindicato dos Profissionais de Ensino do Município de Aracaju vê indícios que esse procedimento foi realizado com irregularidades. 

 

Segundo cláusulas contratuais com a empresa GIESPP, a implementação do sistema – a qual envolve instalação do software na rede, treinamento e capacitação dos docentes – deveria ser feita de forma gradual, com a estimativa de um período máximo de 12 meses. Entretanto, com a premissa do contexto pandêmico, a Secretaria Municipal de Educação buscou antecipar esse processo. As primeiras reclamações foram registradas ainda em 2020, no início das paralisações das aulas devido a pandemia de covid-19, quando a Semed tornou obrigatório o uso do diário escolar digital sem instruir os docentes sobre o uso. 

 

O professor e gestor escolar, Flávio Vinícius, aponta a forma repentina e despreparada dessa implementação. ‘‘Para mim, que estava na gestão da escola como secretário, foi momento de maior trato e aproximação no uso do referido sistema, até porque não foi dada formação devida aos nossos professores e muito menos foram dadas as ferramentas adequadas para o trabalho imposto com a utilização do novo sistema digital, pois o mesmo precisava de aparelhos com boa tecnologia e ligação à rede mundial de computadores para ser utilizado’’. 

 

O Sindipema em conjunto com o Magistério Municipal de Aracaju também tem levantado questionamentos sobre a rentabilidade do sistema. Por unanimidade, os docentes da rede apontam que o custo de implantação e operação não condiz com a qualidade do serviço. Além do alto custo do funcionamento do sistema, o contrato com a empresa que oferta o serviço foi prorrogado por mais 12 meses com o valor de quase 3 milhões na justificativa de ‘‘manter a manutenção do sistema’’. Porém, apesar da renovação contratual, as professoras e professores alegam que os problemas ainda são pertinentes.

 

‘‘Esse sistema que é renovado ano a ano de forma que me parece muito sorrateira, nunca se adequou à nossa realidade e nunca acabou com as próprias inconsistências, muito menos se tornou confiável a qualquer um de nós que construímos o dia a dia das escolas da nossa rede'', destaca o professor Flávio Vinicius.

 
  • Ícone Facebook Facebook
  • Ícone Twitter Twitter
  • Ícone Linkedin Linkedin
  • Ícone Whatsapp Whatsapp
  • Ícone Email Email